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Paraná relembra frio histórico de 1975 com neve e geada negra

Neve encantou o Sul enquanto a geada negra destruiu cafezais e transformou a economia do estado.

Fonte: Catve · 18 de julho de 2026 07:05 · 7 min de leitura

Há 51 anos, o Paraná vivia uma das semanas mais marcantes de sua história. Em poucos dias, um mesmo sistema de ar polar provocou dois fenômenos que entrariam para a memória dos paranaenses por razões completamente diferentes. Enquanto a neve cobria cidades do Sul e encantava milhares de pessoas, a geada negra destruía praticamente todos os cafezais do Norte do Estado, provocando uma tragédia econômica e social que mudaria para sempre o perfil da agricultura paranaense.

O frio histórico de julho de 1975 transformou paisagens, mudou a rotina das cidades e redefiniu a economia estadual. Mais de cinco décadas depois, os reflexos daquele inverno ainda são percebidos. O Paraná deixou de ser o maior produtor de café do Brasil para se consolidar como uma das maiores potências mundiais na produção de soja.

O inverno que entrou para a história

A origem dos fenômenos foi a mesma. Uma intensa massa de ar polar, formada na Argentina, avançou sobre a América do Sul na segunda quinzena de julho de 1975. As temperaturas despencaram em toda a região.

Em Buenos Aires nevou pela primeira vez desde 1918. Em Bariloche, os termômetros chegaram a -18°C. No Paraná, Guarapuava registrou -10°C e Palmas marcou -11°C, uma das menores temperaturas já registradas no Brasil.

No Estado, porém, o frio produziu dois cenários completamente distintos.

A neve virou espetáculo

No dia 17 de julho de 1975, um fenômeno raro cobriu diversas cidades paranaenses.

Nevou em Curitiba, Guarapuava, Palmas, União da Vitória e Pato Branco, além de outras localidades das regiões Centro-Sul e Sudoeste. Ruas, praças e telhados ficaram brancos. Milhares de pessoas deixaram suas casas para registrar um espetáculo que poucas gerações tiveram a oportunidade de presenciar.

Os jornais da época relatavam crianças brincando nas ruas, bonecos de neve espalhados pelas cidades e lojas vendendo rapidamente filmes fotográficos para registrar o momento histórico.

Em Curitiba, a neve caiu durante boa parte da manhã. O comércio foi movimentado, aumentou a procura por agasalhos, bebidas quentes e até por bebidas alcoólicas. O aeroporto Afonso Pena precisou interromper as operações, enquanto milhares de pessoas lotavam ruas e parques para observar o fenômeno.

Mas o mesmo frio que encantava parte da população escondia uma tragédia que começava a se desenhar no Norte do Paraná.

Na madrugada seguinte veio a geada negra

Enquanto o Sul comemorava a neve, produtores rurais do Norte do Estado observavam, sem imaginar, os primeiros sinais de uma catástrofe.

Nos dias anteriores havia chovido intensamente sobre a região cafeeira. Em Londrina foram registrados mais de 85 milímetros de chuva em apenas 48 horas. Quando a massa de ar polar chegou, a temperatura caiu rapidamente.

Na madrugada de 18 de julho, os termômetros marcaram -3,5°C em abrigo e impressionantes -9°C sobre a relva. O solo encharcado e o frio extremo congelaram a seiva das plantas, provocando a chamada geada negra, considerada um dos fenômenos mais destrutivos da agricultura.

Ao contrário da geada branca, que forma cristais de gelo sobre a vegetação, a geada negra age internamente. O frio intenso congela a seiva das plantas, mata os tecidos e faz com que folhas, galhos e troncos escureçam poucas horas depois.

Foi exatamente isso que aconteceu com milhões de pés de café.

O cheiro da destruição

Quem presenciou aquela manhã jamais esqueceu.

A cafeicultora Cornélia Margot Gamerschlag, que era adolescente em 1975, lembra que primeiro viu o branco do gelo. Horas depois, toda a paisagem havia mudado.

“Logo cedo havia gelo branco. Conforme o sol batia, a lavoura inteira ficava preta. Era um cheiro de morte, de folhas necrosando. A sensação era de que nada poderia ser salvo.”

O relato resume o sentimento vivido por milhares de famílias que dependiam exclusivamente da cafeicultura.

O fim do ouro verde

Na década de 1970, o Paraná era responsável por quase metade da produção nacional de café.

O chamado “ouro verde” movimentava a economia estadual, financiava o crescimento de cidades e fazia de Londrina uma referência internacional no mercado cafeeiro.

Na safra de 1975, colhida antes da geada, o Estado produziu cerca de 10,2 milhões de sacas, equivalentes a aproximadamente 48% da produção brasileira.

Poucos meses depois, praticamente toda a lavoura havia desaparecido.

Levantamentos da época mostram que o Paraná possuía cerca de 1,04 milhão de hectares cultivados com café. Um ano após a geada negra, essa área foi reduzida para apenas 3,7 mil hectares, uma retração superior a 99%.

Foi o fim da cafeicultura em larga escala no Estado.

A tragédia também atingiu milhares de famílias

A destruição não ficou restrita às plantações.

Sem produção e sem renda, milhares de agricultores abandonaram o campo.

Muitas famílias perderam propriedades inteiras, migraram para as cidades e passaram a trabalhar como boias-frias ou na construção civil. Para muitos historiadores, aquele período marcou o início do maior processo de êxodo rural já registrado no Paraná.

Relatos preservados por pesquisadores mostram produtores que trocaram fazendas por pequenos cômodos alugados nas cidades, recomeçando a vida praticamente do zero.

O nascimento de uma nova agricultura

Apesar da devastação, a geada negra acabou acelerando uma transformação que mudaria o agronegócio paranaense.

Sem condições de recuperar os cafezais, milhares de produtores passaram a investir em novas culturas.

Foi nesse contexto que a soja começou a ocupar as antigas áreas de café.

Com apoio da pesquisa agropecuária desenvolvida pelo então Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), hoje IDR-Paraná, surgiram novas tecnologias, cultivares adaptadas ao clima e sistemas de produção mais modernos.

Ao longo das décadas seguintes, a soja tornou-se protagonista da economia rural.

Hoje, o Paraná cultiva mais de 5,8 milhões de hectares de soja e colhe mais de 21 milhões de toneladas por safra, figurando entre os maiores produtores do mundo.

O café resistiu

Embora tenha perdido protagonismo, a cultura cafeeira não desapareceu completamente.

Pesquisas em melhoramento genético permitiram o desenvolvimento de variedades mais resistentes ao frio e adaptadas às condições climáticas do Estado.

Atualmente, o Paraná é reconhecido nacional e internacionalmente pela produção de cafés especiais, concentrada principalmente no Norte Pioneiro, onde pequenos produtores apostam na qualidade como diferencial competitivo.

Um inverno inesquecível

O frio de julho de 1975 entrou para a história por dois motivos completamente opostos.

De um lado, a neve proporcionou imagens raras, que ainda hoje emocionam quem as viveu.

Do outro, a geada negra provocou a maior tragédia da agricultura paranaense, destruiu o principal ciclo econômico do Estado e mudou definitivamente o rumo do agronegócio.

Cinquenta e um anos depois, o contraste continua impressionando. O mesmo inverno que levou milhares de pessoas às ruas para admirar a neve também marcou o início de uma profunda transformação econômica e social. Das lavouras de café devastadas pelo frio nasceram as extensas áreas de soja que hoje fazem do Paraná uma referência mundial em produção agrícola, mostrando como um único fenômeno climático foi capaz de reescrever a história do Estado.

Fonte: Catveler a matéria completa no site de origem.

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