Cidades europeias criticam excesso de turistas, mas estão expandindo aeroportos; entenda
Enquanto cidades impõem taxas e restrições para conter o turismo excessivo, aeroportos europeus seguem ampliando capacidade para atender à demanda crescente.
Neste verão, do lado de fora da estação ferroviária de Santa Lucia, em Veneza, agentes equipados com leitores de QR Code abordavam os visitantes para verificar se haviam pago a taxa para turistas de um dia, destinada a conter o turismo excessivo. Enquanto isso, a poucos quilômetros dali, as obras de expansão do Aeroporto Marco Polo estavam em andamento. O aeroporto deverá atender 20 milhões de passageiros por ano, em comparação com os atuais 11,6 milhões.
Veneza não é a única cidade nesse paradoxo. Em toda a Europa, os aeroportos estão se expandindo para atender à crescente demanda por viagens, mesmo enquanto as cidades que eles servem lutam para conter o fluxo de visitantes com impostos turísticos, proibições de aluguéis de curta duração e iniciativas de redução de carbono.
Por exemplo, em Amsterdã, o Aeroporto Schiphol está construindo uma área de embarque de aproximadamente 55.000 m² que será inaugurada no próximo ano. Uma expansão em andamento no Aeroporto Internacional de Atenas aumentará sua capacidade de 26 milhões para 40 milhões de passageiros por ano. E em Barcelona, onde um novo comissário para o turismo sustentável está implementando políticas para diminuir o impacto dos turistas na vida residencial, os planos da autoridade aeroportuária espanhola para expandir o Aeroporto El Prat levaram os opositores a agendar uma manifestação para 20 de setembro.
“É definitivamente uma contradição”, disse Alex Chapman, chefe de política econômica e ambiental da New Economics Foundation, um think tank britânico progressista, em Londres. “Há casos como o de Barcelona, em que a população está praticamente nas ruas em revolta contra o que considera práticas insustentáveis e injustas da indústria do turismo. Propor outra expansão enorme do aeroporto ao mesmo tempo é realmente difícil de conciliar.”
Competição interna
Os esforços conflitantes decorrem de autoridades concorrentes. Em geral, os governos nacionais na Europa supervisionam seus aeroportos, enquanto as áreas mais afetadas pelo excesso de turismo, como habitação e saneamento, ficam sob a jurisdição das autoridades municipais ou regionais. À medida que os cidadãos começaram a protestar contra o impacto do turismo, esses governos locais se viram obrigados a responder.
“Mas o máximo que podem fazer é reduzir o número de alojamentos ou impor uma taxa turística”, disse Tolo Deyá, reitor da faculdade de turismo da Universidade das Ilhas Baleares, na Espanha. “Já o controle ou a redução do número de voos está nas mãos do governo central.”
E para os governos centrais, acrescentou Deyá, “os aeroportos são uma fonte de receita muito importante”. Embora o aumento das conexões aéreas possa impulsionar as economias de países como a Itália, que recebem muitos turistas, Chapman afirmou: “Isso também acarreta muitos outros custos sociais”, como a escassez de moradias e a poluição.
Em um esforço para reduzir o ruído e outros transtornos para os moradores próximos ao aeroporto de Amsterdã, o governo holandês limitou, no ano passado, o número de voos em Schiphol a 478.000 por ano, mas esse limite foi derrubado na justiça. Em 9 de setembro, um novo limite, que permitirá o aumento gradual dos voos para 500.000, desde que as restrições de ruído e ambientais sejam respeitadas, recebeu aprovação preliminar do Conselho de Estado holandês.
Segundo Stefan Donker, porta-voz do aeroporto de Schiphol, as obras em curso não visam aumentar o número de voos, mas sim atender à crescente demanda de passageiros, que passou de 42 milhões para 70 milhões nos últimos 20 anos.
Para muitas empresas de gestão aeroportuária, os projetos de expansão possibilitam modernizações como a atualização dos sistemas de manuseio de bagagens, a melhoria da eficiência energética e a instalação de novas tecnologias, como o sistema de entrada e saída europeu, que entrou em vigor neste verão. Mas as empresas também afirmam que sua obrigação é se adaptar ao aumento das viagens, e não regulá-las.
A Aena, empresa público-privada que administra os principais aeroportos da Espanha, planeja expandir não apenas o aeroporto de Barcelona, mas também os de Madri, Málaga e Bilbao. “Os aeroportos, como qualquer infraestrutura, não podem controlar a demanda”, afirmou Maurici Lucena, presidente da Aena.
O crescimento do aeroporto pode comprometer a eficácia dos esforços locais para conter o turismo excessivo e até mesmo permitir a vinda de mais turistas, dizem os especialistas. “Quando olhamos para Maiorca, por exemplo, o número de leitos de hotel está congelado há muitos anos e os aluguéis de temporada são rigorosamente controlados”, disse Deyá. “Mas o número de chegadas continua aumentando.”
Uma luta pelo equilíbrio
Maiorca é um dos focos de tensão entre as autoridades locais e nacionais. Espaços públicos lotados, mau comportamento de turistas e a falta de habitação acessível têm provocado protestos durante três verões consecutivos (um deles, em julho, levou 25.000 pessoas às ruas de Palma). Ao mesmo tempo, 2024 e 2025 registaram números recordes de passageiros chegando ao aeroporto da ilha, e 2026 está a caminho de ultrapassar esses números.
Como muitos projetos de construção aeroportuária, o de Maiorca foi apresentado como uma renovação, e não como uma expansão física. Mas Margalida Prohens, governante da região, disse ter ficado sabendo neste ano que a Aena também estava aumentando o número de portões de embarque. Desde então, ela reclamou ao primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, sobre a falta de coordenação. “Não é possível que, enquanto as instituições locais trabalham juntas em uma estratégia para conter o turismo em nossas ilhas, a Aena planeje um crescimento contínuo”, disse Margalida.
Na tentativa de obter voz no processo, o parlamento regional das Ilhas Baleares aprovou, na primavera (outono no Hemisfério Sul), um projeto de lei que visa conceder-lhe maior poder sobre a gestão aeroportuária. Outras autoridades locais também querem ter voz. Em Lisboa, onde turistas e nômades digitais expulsaram os moradores locais do mercado imobiliário, o Aeroporto Humberto Delgado, perto do centro da cidade, está passando por uma expansão, enquanto um novo aeroporto, maior, a cerca de 32 km de distância, está previsto para 2034.
“Ruído, qualidade do ar, mobilidade, uso do solo e qualidade de vida são preocupações locais”, afirmou o prefeito de Lisboa, Carlos Moedas, que apoia ambos os projetos aeroportuários pelos seus benefícios econômicos, mas quer vê-los implementados de forma “equilibrada”. “Os lisboetas devem ter voz nas decisões que os afetam.”
E depois há as mudanças climáticas. O turismo excessivo não é a única contradição. Um estudo divulgado em 15 de setembro pela Transport and Environment, uma organização de defesa do clima sediada em Bruxelas, mostra que as expansões planejadas para os 20 maiores aeroportos da Europa farão com que os países anfitriões ultrapassem metas nacionais de carbono necessárias para limitar o aquecimento global a 1,7ºC.
A Dinamarca, cuja Lei do Clima a obriga legalmente a reduzir as emissões de carbono em 70% até 2030, posicionou-se na vanguarda da luta contra as mudanças climáticas. No entanto, o Aeroporto de Copenhague, de propriedade do governo dinamarquês, está construindo uma extensão de 60.000 metros quadrados em seu terminal, o que, segundo críticos, aumentará a poluição nos bairros urbanos próximos e agravará sua pegada de carbono.
“Temos um governo que está usando nossas políticas ambientais climáticas como estratégia de marketing diplomático no mundo todo”, disse Leila Stockmarr, membro do Parlamento e porta-voz para assuntos de transporte do partido de esquerda Enhedslisten. “E o Estado está levando adiante o projeto de expansão, o que significa que, na prática, o governo lucra ao minar suas próprias políticas ambientais.”


