Laudo aponta cocaína como causa da morte de jovem encontrada morta em casa na Grande Curitiba
Exame não encontrou lesões por agressão, mas família contesta versão de latrocínio e aponta contradições nos depoimentos.
A morte de Sthefany Bianca dos Santos, de 29 anos, encontrada morta dentro de uma casa no Jardim Itália, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), ganhou novos capítulos. O laudo da Polícia Científica do Paraná apontou intoxicação por cocaína como causa da morte e não identificou lesões no corpo que expliquem uma morte provocada por agressões.
O caso aconteceu em 19 de junho e, inicialmente, o então namorado da vítima contou à polícia que a residência havia sido invadida por quatro ou cinco homens. Segundo o relato, ele teria sido agredido e os criminosos teriam obrigado Sthefany a consumir cocaína até que ela sofresse uma overdose.
Quatro suspeitos foram presos durante a investigação. O caso avançou na Justiça com denúncia pelo crime de latrocínio, que é o roubo seguido de morte. Mesmo assim, a família de Sthefany questiona diversos pontos da investigação e afirma que ainda existem perguntas sem resposta sobre o que aconteceu dentro da residência.
Laudo aponta intoxicação por cocaína
O principal avanço na investigação foi o resultado da perícia. Conforme o documento obtido pela reportagem, Sthefany morreu em decorrência de intoxicação por cocaína. O exame também não encontrou sinais de violência no corpo que pudessem explicar a morte por agressão. A informação, porém, não esclarece uma das principais dúvidas do caso: como a cocaína foi parar no organismo da jovem.
No dia da morte, o companheiro afirmou que os invasores teriam obrigado Sthefany a usar a droga. “Provavelmente deram cocaína para ela. Acho que ela morreu por overdose”, afirmou o namorado à época. Durante a investigação, ele também sustentou que os homens teriam entrado na residência para uma ação relacionada ao tráfico de drogas.
A Polícia Civil do Paraná (PCPR), inicialmente, tratou o caso como uma possível ocorrência de latrocínio. O delegado Fábio Machado afirmou que era necessário reconstruir a dinâmica dos fatos e verificar se a versão apresentada pelo companheiro seria confirmada. “Tudo vai ser apurado, é um caso complexo que demanda cautela para que a gente verifique se realmente houve um latrocínio ou se outro crime está envolvido em todo esse episódio”, disse o delegado.
Câmeras ajudaram a polícia a identificar suspeitos
As imagens de câmeras de segurança da região passaram a ser uma das principais peças da investigação. Por volta das 23h40, um carro branco parou em frente à residência. Os ocupantes permaneceram no local por aproximadamente 15 minutos. Por volta das 23h57, dois homens foram vistos entrando no veículo e deixando o endereço. Pouco depois, outros três suspeitos saíram da casa a pé. O celular do namorado da vítima também teria sido levado.
A investigação aponta ainda que o companheiro de Sthefany deixou a residência pouco depois da meia-noite. A versão considerada pela polícia é de que ele teria saído para buscar ajuda após a suposta invasão. Dentro da casa, os investigadores encontraram sinais de confusão, com objetos quebrados, gavetas abertas e a fiação de uma televisão arrancada. As imagens contribuíram para a identificação dos suspeitos e quatro pessoas acabaram presas.
Suspeito diz que mulher já estava passando mal
Um dos presos confirmou que esteve na casa, mas negou que Sthefany tenha sido obrigada a usar drogas. Segundo ele, quando entrou no quarto, a jovem já estava convulsionando e se debatendo. “Quando nós saímos da casa, ela está lá no mesmo lugar, parada, na cama”, afirmou o suspeito. Questionado sobre a situação da vítima, ele acrescentou: “Estava se batendo. Deitada lá se batendo.”
O suspeito também afirmou que ninguém do grupo teria encostado em Sthefany. “No mesmo lugar. Ninguém mexeu na mulher, ninguém chegou perto da mulher.” De acordo com o suspeito, o objetivo do grupo não seria matar Sthefany, mas agredir seu namorado. A motivação, segundo ele, estaria relacionada a uma disputa envolvendo o tráfico de drogas. Ele ainda afirmou que o companheiro estaria vendendo entorpecentes em uma área onde não poderia atuar. A versão, entretanto, é uma das peças que ainda precisam ser confrontadas com os demais elementos reunidos pela investigação.
Ex-namorado aparece na investigação por causa de digitais
Outro personagem que passou a ser analisado pelos investigadores foi um ex-namorado de Sthefany. Segundo a reportagem, três fragmentos de impressões digitais encontrados na residência foram atribuídos a ele. O homem negou ter estado na casa na noite da morte e afirmou que as digitais poderiam ser antigas, de quando ainda mantinha relacionamento com a vítima. “Eu não estava lá no dia que aconteceu isso”, declarou.
Ele explicou que já havia permanecido na residência anteriormente, quando ainda namorava Sthefany, e por isso suas impressões poderiam estar no imóvel. A perícia, entretanto, não consegue determinar apenas pela impressão digital quando ela foi deixada no local. Por isso, o resultado não comprova que o homem estivesse na residência no momento da morte. A polícia também chegou a analisar a possibilidade de uma motivação relacionada a ciúmes, já que Sthefany e o namorado estavam juntos havia cerca de duas semanas.
Família questiona investigação e denúncia por latrocínio
A advogada que representa a família de Sthefany, Katlyn Oliveira, também levantou questionamentos sobre a versão apresentada no início do caso. Segundo ela, o processo avançou na Justiça e houve oferecimento de denúncia por latrocínio. “Já foi ofertada denúncia, porém uma denúncia num crime de latrocínio”, afirmou Katlyn.
A advogada questiona a dinâmica atribuída ao crime, especialmente porque, segundo ela, os suspeitos teriam entrado na residência para roubar apenas um celular. “Um latrocínio onde cinco pessoas ingressaram numa residência para roubar o iPhone XR do namorado, deixando todos os outros bens de valor dentro da casa.”
A família também apresentou outras informações que considera relevantes para a investigação. Segundo depoimento da cunhada de Sthefany, fotos e publicações do Instagram da jovem teriam sido apagadas ainda na noite da morte. Teria permanecido apenas a informação de que ela estava em um relacionamento com o namorado. Os familiares também contestam a afirmação de que o companheiro seria apresentado à família em um almoço no dia seguinte. Segundo eles, não conheciam o então namorado de Sthefany. Outro depoimento citado na reportagem aponta que o namorado teria procurado um amigo no dia seguinte à morte e feito comentários sobre o caso. Essas informações também passaram a integrar o conjunto de elementos analisados.


