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Cidade da Lapa, palco de resistência de 26 dias em 1894, se torna museu a céu aberto

Com primeiro conjunto arquitetônico tombado pelo Iphan no Paraná, município alia patrimônio, natureza e espiritualidade

Por Jornal da Manhã · 15 de julho de 2026 06:42 · 3 min de leitura

A Lapa, nos Campos Gerais do Paraná, guarda nas ruas de paralelepípedos e nos casarões coloridos do século XIX a memória viva de um episódio que mudou os rumos do Brasil republicano. O centro histórico da cidade, o primeiro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no estado, é hoje um museu a céu aberto.

Os 26 dias que frearam o avanço federalista

Em janeiro de 1894, durante a Revolução Federalista, as forças legalistas comandadas pelo general Gomes Carneiro resistiram por 26 dias ao cerco das tropas gaúchas. Conhecido como Cerco da Lapa, o confronto custou muitas vidas e deixou a cidade quase completamente destruída, mas o tempo ganho foi estratégico: permitiu que o governo federal desarticulasse a revolta e evitasse a tomada da capital, o Rio de Janeiro.

Primeiro conjunto arquitetônico protegido do estado

O tombamento estadual veio em 1989 e, em 1998, o Iphan reconheceu o sítio como o primeiro conjunto arquitetônico paranaense protegido em âmbito federal. São 14 quarteirões e 235 imóveis que nasceram ao longo do antigo Caminho das Tropas. Casarões luso-brasileiros, prédios ecléticos e construções de imigrantes convivem sem que o espaço pareça cenográfico — a Lapa é um museu vivo e habitado.

Theatro São João: do espetáculo à enfermaria

Inaugurado em 1873, o Theatro São João é o terceiro mais antigo do Brasil ainda em funcionamento, segundo registros do Iphan. A arquitetura mistura neoclássico e influência elisabetana e encantou dom Pedro II e a imperatriz Thereza Christina em 1880. Durante o cerco, o edifício foi transformado em enfermaria improvisada. Hoje funciona como centro cultural aberto à visitação, com plateia e camarotes originais preservados.

Passeio a pé pelos principais pontos

Museus, igrejas e casarões estão concentrados em poucas quadras e podem ser percorridos calmamente a pé. O trajeto ganha ritmo de uma reportagem histórica ao vivo, em que cada fachada conta um pedaço da resistência republicana.

Parque do Monge: gruta, lendas e fé

A três quilômetros do centro fica o Parque Estadual do Monge, nono parque estadual mais visitado do Brasil em 2023 (83.871 visitantes, segundo o Instituto Semeia). São 371,6 hectares de Mata Atlântica em torno de uma gruta que se tornou lenda. Entre 1847 e 1855, o eremita João Maria D’Agostinis viveu ali, estudando plantas, tratando enfermos e fazendo profecias. A figura mística mais tarde seria associada à Guerra do Contestado. A gruta continua sendo ponto de peregrinação, e a fonte de água próxima é considerada milagrosa pelos romeiros.

Clima e acesso

O inverno lapeano é rigoroso, com dias que podem ficar abaixo de 10°C, enquanto o verão tem tardes quentes e chuvas ao cair da noite. A cidade dista 68 quilômetros de Curitiba, com acesso pela Rodovia do Xisto (BR-476). De carro, o percurso leva pouco mais de uma hora a partir da capital. O aeroporto mais próximo é o Afonso Pena, em São José dos Pinhais.

Poucas cidades brasileiras oferecem um centro histórico tão íntegro, que reúne museus, um teatro centenário e o cenário real de uma batalha decisiva. A Lapa entrelaça memória imperial, natureza preservada e o silêncio de uma gruta que ainda atrai peregrinos. Um destino que pede, sem pressa, uma caminhada por suas ruas de pedra que ainda têm cara de 1894.

Com informações de Olhar Digital.

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