Explosão na Enaex em Quatro Barras completa um ano; veja o que mudou
Tragédia que matou nove trabalhadores completa um ano com acordos indenizatórios concluídos, mas investigações e ações judiciais ainda tramitam.
A explosão na Enaex em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), completa um ano nesta quarta-feira (12). A tragédia, que aconteceu na manhã de 12 de agosto de 2025, matou nove trabalhadores e deixou outras sete pessoas feridas. Além das vidas perdidas, o acidente provocou danos em imóveis, mobilizou moradores de diferentes pontos da região e deu início a investigações e medidas judiciais.
Um ano depois, a Enaex afirma que concluiu, de forma consensual, os acordos indenizatórios com os dependentes das nove famílias. A Defensoria Pública do Estado do Paraná (DPE-PR), que presta assistência jurídica aos familiares desde a tragédia, informa que atualmente representa duas famílias em processos que tramitam sob segredo de Justiça.
Explosão matou nove trabalhadores em Quatro Barras
Por volta das 5h50 da manhã, uma forte explosão atingiu uma unidade de produção de explosivos da Enaex Brasil, antiga Britanite, em Quatro Barras. A força da detonação destruiu completamente uma estrutura de aproximadamente 25 metros quadrados e abriu uma grande cratera no terreno.
O impacto foi sentido para além dos limites da fábrica. Moradores de diferentes bairros de Quatro Barras e de outras cidades da Região Metropolitana de Curitiba relataram ter ouvido o estrondo e sentido tremores.
Nove trabalhadores morreram — seis homens e três mulheres. Outras sete pessoas ficaram feridas e foram encaminhadas para atendimento médico.
A força da explosão também dificultou a identificação dos mortos. Na época, as autoridades informaram que os corpos foram fragmentados e que seria necessário realizar exames de DNA para confirmar a identidade das vítimas.
Quem eram as nove vítimas da explosão?
As vítimas tinham histórias diferentes, mas eram lembradas por familiares, amigos e colegas pela convivência e pelos vínculos que mantinham com suas comunidades.
Entre os mortos estavam Camila de Almeida Pinheiro, estudante de Educação Física e praticante de musculação; Cleberson Arruda Correa, funcionário da Enaex havia apenas dois meses, casado e pai de um filho; e Eduardo Silveira de Paula, morador de Campina Grande do Sul e pai de dois filhos.
Também morreram Francieli Gonçalves de Oliveira, mãe de uma menina de cinco anos; Jéssica Aparecida Alves Pires, mãe de duas meninas; Márcio Nascimento de Andrade, pastor e pai de uma menina; Pablo Correa dos Santos, engenheiro de software e atleta que planejava pedir a namorada em casamento; Roberto dos Santos Kuhnen, conhecido entre familiares como “Tio Galo”; e Simeão Pires Machado, pai de dois filhos e ligado ao futebol da comunidade.
Justiça reduz bloqueio de bens e nega interdição da Enaex
Sete meses após a explosão, em março de 2026, o Ministério Público do Paraná (MPPR), por meio da Promotoria de Justiça de Quatro Barras, ajuizou uma ação civil pública contra a Enaex. Entre os pedidos, estava a interdição imediata das atividades de manipulação de explosivos na unidade, além de medidas para garantir a reparação dos danos causados pela tragédia.
A Justiça do Paraná, porém, negou o pedido de interdição. Na decisão, o Judiciário considerou que, à época dos fatos, a empresa operava com licenças e autorizações administrativas vigentes e destacou que a atividade, embora seja de risco, é lícita.
O MPPR também havia solicitado a indisponibilidade de R$ 50 milhões em bens da Enaex. O valor, no entanto, foi considerado genérico e desproporcional pela Justiça. Em substituição, foi determinado o bloqueio de R$ 4.376.700, equivalente a R$ 486.300 por cada uma das nove vítimas fatais.
A decisão reconheceu a plausibilidade do dever de indenizar as famílias das vítimas. Na ação, o Ministério Público havia pedido ainda o pagamento de pelo menos R$ 1 milhão por vítima fatal, a título de danos morais individuais, além de pensão mensal aos dependentes.
O MPPR também solicitou indenização por dano moral coletivo de, no mínimo, R$ 20 milhões, além de medidas de reparação ambiental e urbanística.
Outro pedido do Ministério Público era a apresentação imediata de um plano técnico completo de segurança, contingência e reestruturação operacional. A Justiça também negou essa medida neste momento, considerando que a exigência poderia interferir na produção de provas, comprometer futuras perícias e dificultar a reconstrução das circunstâncias da explosão.
Enaex diz que concluiu acordos com as nove famílias
Apesar dos pedidos apresentados pelo Ministério Público, a Enaex afirmou em nota que os acordos indenizatórios com os dependentes das nove famílias foram concluídos de forma consensual.
Segundo a empresa, os acordos foram realizados com acompanhamento da Defensoria Pública do Paraná e dos representantes legais de cada família.
A Enaex também afirma que concluiu os atendimentos às residências e empresas da comunidade que foram impactadas pela explosão.
“Os acordos indenizatórios com os dependentes das nove famílias foram concluídos de forma consensual, com acompanhamento da Defensoria Pública do Estado do Paraná e dos representantes legais de cada família”, informou a empresa.
DPE representa duas famílias em processos sob segredo de Justiça
A Defensoria Pública do Estado do Paraná informou que atua desde agosto de 2025 em defesa dos direitos das famílias das vítimas.
A instituição prestou assistência jurídica gratuita aos familiares em diferentes etapas após a tragédia, incluindo questões relacionadas à liberação dos corpos, obtenção de certidões de óbito, autorizações de cremação e outras necessidades decorrentes das mortes.
A DPE-PR também afirma que atuou, de forma independente do atendimento individual, para estabelecer critérios mínimos para a reparação dos familiares das vítimas.
Atualmente, segundo a instituição, duas famílias são representadas pela Defensoria em processos que tramitam em segredo de Justiça.
O que mudou na Enaex após a explosão?
Um dos principais pontos de prestação de contas após um ano da tragédia envolve as mudanças adotadas pela empresa.
Em nota, a Enaex afirma que, após o acidente, revisou procedimentos, fortaleceu controles, ampliou treinamentos e reforçou a gestão de riscos. A empresa também diz ter implementado medidas adicionais de prevenção.
As operações da unidade foram retomadas gradualmente, segundo a companhia, com foco no bem-estar e na segurança dos trabalhadores.
“A partir do acidente, revisamos procedimentos, fortalecemos controles, ampliamos treinamentos, reforçamos nossa gestão de riscos e implementamos medidas adicionais de prevenção”, afirmou a Enaex.
A empresa também declarou que colaborou com as autoridades responsáveis pelas investigações e que segue cumprindo as determinações dos órgãos competentes.
O que apontaram as investigações?
As investigações realizadas após a explosão também buscaram esclarecer as circunstâncias do acidente.
Um laudo da Polícia Científica apontou que as baixas temperaturas registradas naquela manhã — próximas de 3°C — podem ter contribuído para a ocorrência da explosão.
Em março deste ano, o Ministério Público também informou que a ação civil pública foi baseada em um inquérito civil que reuniu laudos técnicos, documentos ambientais, manifestações do município, autos de infração e relatório do Ministério do Trabalho e Emprego, entre outros documentos.
O MPPR classificou o episódio como de extrema gravidade, destacando que os impactos ultrapassaram os limites da fábrica e envolveram questões relacionadas às famílias das vítimas, ao meio ambiente e à ordem urbanística.


